De uma forma ou de outra tudo está interligado... Não há como escapar. Uns chamam de destino... Outros chamam de carma (karma), há quem chame de terceira Lei de Newton e alguns de intervenção divina . Qualquer que seja o nome dessa ligação, ela sempre termina onde começou , reagindo conforme as ações anteriores.
A CHANCE
Vidros e retratos quebrados, roupas pelo chão e um silêncio quase absoluto no quarto. Poderia se dizer que um furacão passou por ali. O cenário veio se repetindo durante os últimos meses e já não espantava mais os vizinhos e nem os moradores. Aliás, os moradores estavam presentes na cena caótica, aparentemente cansados e pensativos. Beatriz estava sentada na cama de cabeça baixa e Hugo estava próximo a porta do banheiro, encostado e de olhos fechados.
Outrora aquele cenário significava mais uma incrível e tórrida noite de amor, mas agora representava somente o ódio de ambos
- Eu quero o divórcio... Eu preciso do divórcio... Eu preciso viver novamente – disse Hugo quebrando o silêncio.
Ele decide se aproximar daquela mulher com quem a pouco tivera uma briga terrível. Ajoelha-se na frente dela e olha fixamente em seu rosto.
O rosto, sim, o rosto da mulher por quem passou anos apaixonado. A quem jurou amor eterno. Ainda era o mesmo rosto daquela jovem que conheceu em uma festa de aniversário da irmã da prima da amiga do melhor amigo dele. Uma história que ele adorava contar para aqueles que perguntavam como eles se conheceram, mas agora ele já nem sequer fazia questão de recordar.
Hoje era um rosto pálido com algumas rugas, mas era ainda um belo rosto. O nariz ainda era fino ornando com o formato do rosto. Ainda tinha as três pintas próximas ao olho esquerdo, bem como as sardas. Os olhos, aqueles olhos que ele jurava terem sido desenhados, eram arredondados e ao final eram levemente puxados. Os olhos castanhos mais expressivos que conhecera, já não lhe dizem nada.
- Eu conheci alguém – e segurou as mãos de Beatriz – não nos envolvemos ainda. Na verdade só tomamos um café, mas eu me senti vivo de novo. É como se eu pudesse... Se eu pudesse amar outra vez!
Aquelas palavras foram como um soco em Beatriz. Pela primeira vez ela olhou no rosto de Hugo. Buscava fervorosamente que ele estivesse arrependido, mas só encontrou naqueles olhos negros como a noite a verdade das palavras ditas.
- Eu juro que eu tentei Bia – disse Hugo colocando a cabeça em seu colo – juro que eu tentei resgatar o nosso amor, só que ambos sabemos que ele acabou. Bem como nossos sonhos... Pelo amor de Deus diga algo!!!
- Dizer o que, se você já decidiu tudo por nós dois? – disse afastando ele de seu colo – Me diga à opção que eu tenho? – e segura seu rosto – Eu ainda te amo! Você é o amor da minha vida! Você é a razão da minha existência! E MESMO SABENDO DE TUDO ISSO, VOCÊ NÃO QUER MAIS! NÃO ME QUER MAIS!
- Nós não nos suportamos mais Beatriz! Olha nossas brigas! Olhe para nós! Acabamos de brigar e já começamos de novo – e levantou-se. Não podia mais levar aquilo adiante então ,de costas, decretou- Irei para casa de um amigo e amanhã entrarei com a papelada. Peço que assine o divórcio em memória do que vivemos.
- Vai para a casa dela? – disse sarcasticamente indo em direção do Hugo – Vai brindar a morte do nosso “amor eterno” com ela?Contará para ela que o mesmo amor que jurou para mim ,agora jura para ela?
- Ela nem sabe de nada. Nem tenho certeza se é ela que eu vou amar...- e se virou para Beatriz- Já disse que irei para casa de um amigo. Não direi o nome para que você não me siga.
- Lamento informá-lo, mas dessa vez não irei. Tenho meu orgulho. E você já decidiu tudo por nós dois. Então vá. Leve suas coisas e vá. Mas leve tudo! TUDO!
Hugo abriu a porta do quarto e foi em direção a cozinha onde encontrou a secretária do lar, Helena, para quem pediu que arrumasse suas coisas. Todas elas, enquanto ele iria à portaria ver se tinham um número de táxi.
Quando Helena entrou no quarto encontrou Beatriz chorando convulsivamente na cama.
- Dona Beatriz não fique assim... – disse ela sentando na cama – Logo , logo Seu Hugo vai voltar para casa novamente . Como sempre.
- Não , não Leninha – disse beatriz entre soluços – dessa vez não. Dessa vez foi o fim. O fim de tudo! Ele já tem outra! Mas agora quem não quer sou eu!
- ô Dona beatriz , isso passa. Tudo nessa vida passa. E vocês sempre foram um casal tão unido. É só uma fase. – e levantou da cama – eu vim pegar as coisas do patrão.
Quando Hugo subiu as suas malas estavam feitas. Ele pensou em ir até o quarto dar um adeus a Beatriz , mas resolveu que não , pois ela poderia implorar para que ele ficasse. Então ele pegou suas coisas e foi embora.
Ao ouvir a porta se fechando na sala, Beatriz pensou em levantar, mas seu corpo não lhe obedeceu. Então ela deitou em sua cama e chorou.
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